| |
DINHEIRO NO LIXO - 22/06/2007
REVISTA VEJA (20/06/2007)
DINHEIRO NO LIXO
PACOTE PARA SOCORRER SUPOSTAS VÍTIMAS DO DÓLAR BARATO É INÚTIL E CARO.
Há apenas um mês, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comercio Exterior, Miguel Jorge, deu um recado ousado a empresários que pediam compensações do governo aos prejuízos que tiveram com o dólar barato. Na ocasião o ministro declarou ser natural que as empresas ineficientes e antiquadas morram com o real valorizado. “Acredito que um número mínimo de empresas, as mais velhas, as mais obsoletas, as que não investiram, as que têm problemas de velhos equipamentos, pode morrer nesse processo”. Disse ele. Na semana passada, o governo jogou esse sábio diagnóstico no lixo ao anunciar um pacote de 3 bilhões de reais a um punhado de setores incomodados com a desvalorização do dólar. Escolhidos a dedo, esses setores pagarão menos impostos e terão acesso a uma linha de crédito subsidiado do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os principais beneficiados serão as indústrias têxteis, de confecções, as fabricantes de sapatos e as de móveis. Pela versão oficial esses setores poderão retornar competitividade e defender-se da concorrência “predatória” dos importados. Balela. A despeito de algumas empresas de porte menor estarem passando por dificuldades, essas indústrias estão longe de viver um momento de crise. As melhores companhias, aquelas que merecem sobreviver, se modernizaram e têm alcançado resultados invejáveis, mesmo adiante da acirrada concorrência asiática. É o caso da Coteminas, do vice-presidente José de Alencar, que aparece entre as empresas têxteis, mais lucrativas do país. Depois de uma fusão com a americana Springs em 2005, a empresa se tornou a maior fabricante mundial de artigos de cama e banho. Embora tenha havido um aumento nas importações recentemente, o setor têxtil ainda exibe um folgado saldo na sua balança comercial – ou seja, exporta mais do que importa. O mesmo vale para as companhias de calçados e móveis (veja quadro), o que torna o pacotinho do governo ainda mais anacrônico. “No Brasil em vez de premiar os vencedores, aquelas empresas que criam riquezas, existe uma cultura de apoiar os perdedores”, afirma Claudio Haddas, diretor da escola de negócios Ibmec São Paulo. “Não faz o menor sentido dar subsídios àqueles que não conseguem competir.” Como diria a ministra Marta Suplicy, ao contribuinte, dono do dinheiro, só resta “relaxar e gozar...”
A FALSA CRISE Os setores beneficiados pelo pacote de socorro cambial do governo exportam muito mais produtos do que importam
TÊXTEIS E CONFECÇÕES (Saldo comercial, em dólares) Exportação 1,994 bilhão Importação -1,683 bilhão A favor do Brasil 311 milhões
CALÇADOS (Saldo comercial, em pares) Exportação 180 milhões Importação -12 milhões A favor do Brasil 168 milhões
MÓVEIS (Saldo comercial, em dólares) Exportação 945 milhões Importação -136 milhões A favor do Brasil 809 milhões
Fonte: Revista Veja (20/06/2007)
|
|